Medicina Estética NÃO é reconhecida no Brasil

Em 10 anos, o aumento de 609% no número de processos julgados no Conselho Federal de Medicina dá o alerta

Belo Horizonte — Quem é obcecado pela ideia de melhorar o visual costuma ignorar preceitos básicos de segurança. Esticar, aumentar, desentortar, remodelar ou diminuir são verbos conjugados quase despreocupadamente por alguns profissionais da medicina estética. Há regras, mas muita gente as desrespeita. Ginecologistas implantam próteses mamárias em suas pacientes, ortopedistas se aventuram em lipoaspirações, anestesistas reparam narizes e pediatras viram experts em toxina botulínica — e por aí vai. A reviravolta nesse mercado tem incomodado, e muito, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e a Sociedade Brasileira de Dermatologia, que denunciam: a qualidade desses procedimentos pode ser um risco real no Brasil, onde, em 10 anos, aumentou em 609% o número de processos relativos à área julgados pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), passando de 11 em 2001, para 78 no ano passado.

Apesar de o mercado estético atrair profissionais de áreas diversas há pelo menos 10 anos, foi apenas recentemente que essa situação se intensificou e virou epidemia em território nacional. A grande questão, segundo apontam as entidades que congregam cirurgiões plásticos e dermatologistas, é que esses outros profissionais ingressam na área se submetendo a cursos não legalizados para conseguir o título de especialização em medicina estética — termo, inclusive, não reconhecido pelo CFM nem por outras entidades médicas. Há aulas que, vendidas como pós-graduação, chegam a custar R$ 20 mil e exigem do aluno o registro no CFM e o diploma de médico.

Para ser um cirurgião plástico, o médico, depois de seis anos na graduação de medicina, precisa fazer dois anos de cirurgia geral e mais três anos de cirurgia plástica, o que resulta em 11 anos de preparo. Por lei, o profissional que se forma em medicina tem o direito de se especializar no que quiser. No entanto, a medicina estética, para qual há cursos de um ano, não é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, que a considera inexistente na área médica. “O grande desafio nessa história é que não há uma regulamentação e as coisas estão sendo feitas mesmo assim. Não vai demorar muito para essa bomba estourar”, alerta o presidente da Associação Médica de Minas Gerais, Lincoln Lopes Ferreira, explicando que o médico que recorre a esse tipo de curso não contará com o respaldo do conselho em caso de algum problema durante a operação. “Há muitos profissionais sendo cassados por isso”, frisa Ferreira. A SBCP estima que 90% das complicações em cirurgias ocorrem quando o procedimento não é feito por um especialista.

A bomba já atingiu a analista química G.L.M. Em 2008, ela colocou uma prótese mamária com um médico que se dizia cirurgião plástico. “Ele cobrava mais barato, uma diferença de R$ 3 mil. Não gostei do resultado, meus seios ficaram feios e, para piorar, no fim do ano passado, senti um nódulo na mama e descobri que o silicone tinha estourado”, conta ela, acrescentando que soube, recentemente, que o doutor responsável pela sua cirurgia não era cirurgião plástico. “Eles nos enganam. Hoje, vou gastar muito mais para resolver o problema, mas tenho a certeza de que nunca mais farei uma cirurgia sem antes saber que profissional é esse”, aconselha, revelando que vai acertar as contas na Justiça.

Embelezamento

Segundo o diretor nacional de Defesa Profissional da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Jorge Menezes, a situação é preocupante. “Essa tal medicina estética congrega tudo o que pode embelezar o ser humano, mas muitos cursos não são reconhecidos pelas entidades médicas e nem sequer têm embasamento científico.” As áreas mais procuradas por esses doutores são as de cirurgia de pálpebra, aumento da mama, lipoaspiração e remodelamento de narizes, além de procedimentos complementares, como preenchimentos faciais que usam a toxina botulínica e os peelings a laser. “Como geralmente eles cobram um preço mais baixo, a procura é grande. O resultado é uma boa parcela da população insatisfeita com os resultados”, critica.

Menezes lamenta que, com os cursos rápidos e não legalizados pelo CFM, na maioria das vezes, o profissional não aprende de forma satisfatória. “Quando se faz uma residência na área, ela é fiscalizada e credenciada pela SBCP. Ali, você aprende os seus direitos e deveres. Tem ciência da noção da estrutura e harmonia corporal de uma pessoa, para que saiba se determinada prótese de mama, por exemplo, ficará bem em uma cliente de determinada estatura”, cita.

Tanto para os cirurgiões quanto para os dermatologistas, a situação é periclitante. Segundo lamenta a presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Seção Minas Gerais, Flávia Bittencourt, há muitos cursos de pós-graduação em dermatologia feitos nos fins de semana, que não fornecem formação tão sólida quanto uma residência médica na área. “E isso tem proliferado. É assustador quando chegam às nossas mãos pacientes com complicações geradas por um desses profissionais”, diz.

Flávia tem uma possível explicação para tudo isso: “O número de faculdades de medicina aumentou, mas as vagas de residência não cresceram na mesma proporção. Muitos médicos viram no modismo da medicina estética um momento oportuno. Além disso, vem a questão dos planos de saúde não cobrirem as intervenções estéticas, o que gera mais lucro para o profissional”, comenta.

Para Wanda Elizabeth, membro da câmara técnica de cirurgia plástica do Conselho Federal de Medicina, a responsabilidade é de quem opta em fazer cursos para estética e cirurgias plásticas. “São eles que vão responder pelo erro. O médico que não é especialista não está proibido de exercer, mas deve estar consciente de que não está qualificado para tal.”

Jogo de interesses

Por outro lado, para a Sociedade Brasileira de Medicina Estética (SBME), que tem 2,5 mil associados, a briga é de interesses. De acordo com o presidente da entidade, Valcinir Bedin, no Brasil há atualmente 14 mil médicos que exercem a medicina estética. “A SBME surgiu há cerca de 20 anos, com um grupo de médicos que percebeu que existia uma lacuna no aprendizado sobre a medicina estética. Na faculdade, aprendemos sobre doenças, não sobre como tratar rugas e celulites”, comenta.

De acordo com ele, qualquer médico, pode sim, fazer cursos de medicina estética. “É preciso ter um curso mínimo para isso, mas não aprovamos as aulas para cirurgias invasivas, porque isso tem que ser feito por cirurgião plástico”, alerta Bedin, reconhecendo que há cursos que usam o nome de medicina estética e ensinam esse tipo de procedimento.

“Um especialista em medicina estética não pode pôr prótese em ninguém. Isso é papel do cirurgião”, diz, acrescentando que há dermatologistas que não sabem tratar uma queda de cabelo. “A briga é pelo cliente. E há interesse político nisso também. Por que o CFM não normatiza a medicina estética? Se houvesse a regulamentação, haveria mais rigor para esses cursos que ensinam cirurgias invasivas a qualquer doutor”, aposta, certo de que a ilegalidade está ligada à ética (ou à falta dela) de muitos profissionais.

CABO DE GUERRA

O que dizem dermatologistas e cirurgiões plásticos

» Esses especialistas alegam que estudaram 11 anos para estarem aptos para realizar procedimentos estéticos e que cursos de um ano ou de fins de semana não preparam os médicos para terem as mesmas aptidões. Sustentam que há profissionais de pediatria, ginecologia, ortopedia e até endocrinologia implantando próteses nas mamas ou fazendo cirurgias corretivas no rosto sem preparo para isso.

» Dizem que o Conselho Federal de Medicina (CFM) não reconhece a medicina estética nem como especialidade médica nem como área de atuação e, como tal, os que optam por ela estão ilegais.

» Apostam que o interesse pela área de estética tem aumentado entre ginecologistas, ortopedistas e outros médicos porque os planos de saúde não cobrem esse tipo de procedimento, o que rende mais lucro a esses profissionais.

O que diz a Sociedade Brasileira de Medicina Estética

» Nega que a medicina estética seja invasiva e diz que a entidade só aprova procedimentos em que não haja cortes. Garante que os cursos, pelo menos os oferecidos pela entidade, são de no mínimo um ano e têm aulas teóricas e laboratoriais.

» Luta para que o CFM reconheça a medicina estética e a regulamente. Assim, acredita que irá diminuir o número de cursos que usam o termo com más intenções, pois haverá “mais rigor”.

» Diz ser direito do médico querer ou não mudar de área de atuação.

ATENÇÃO, PACIENTES
Antes de um procedimento cirúrgico:

» Procure saber se o médico é cirurgião plástico, verificando o cadastro do profissional na Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

» Duvide de preços muito baixos em relação aos apresentados na
média do mercado.

» Desconfie de títulos de especialistas em medicina estética para cirurgião. A Sociedade Brasileira de Medicina Estética alerta não ser a favor de cursos que ensinam procedimentos invasivos.

Publicidade médica

No dia 15, o cerco vai apertar para a medicina estética. Entra em vigor no país a Resolução 1.974, do Conselho Federal de Medicina, que regula a publicidade médica e diz que os títulos lato sensu só poderão constar quando vinculados à especialidade registrada no Conselho Regional de Medicina, o que impede que cursos como os de medicina estética sejam equiparados à residência médica. Além disso, ficará vetado no país o anúncio de pós-graduação realizada para a capacitação pedagógica em especialidades médicas e suas áreas de atuação, exceto se estiver registrada no conselho, o que não é o caso da medicina estética.

Fonte: Correio Braziliense / Luciane Evans

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